terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Qual a violência que menos agride a sua paz?


Hoje, 30 de Janeiro, comemora-se o dia da "não violência". Abaixo um texto para pensar a respeito:

O céu pálido denunciava que era bem cedo ainda, mas devido ao calor e ao compromisso assumido naquela manhã, o menino já estava de pé. Baixo e troncudo, denunciava a sua procedência nordestina que em conjunto com a tez bem morena, o fazia um brasileirinho típico. Talvez tenha sido por isto que ele foi recrutado pela associação para esta entrevista, como também por ele viver trepado na laje do prédio da associação, atrás de pipas.

Ele arregalou bem os olhos, muito negros e redondos, como que fizesse força para enquadrar a cena à sua frente.

Ele via um escritor novato, um homem de meia-idade, mexer avidamente em sua bolsa e tirar um minúsculo aparelho, que supôs ser o gravador, pousar na mesinha de centro que fazia parte do pobre mobiliário daquela saleta da associação de moradores e ligar o tal aparelhinho, apontando de forma desafiadora em direção ao menino, que acostumado com objetos sendo apontados para o seu rosto, não se intimidou, lembrou do dinheiro que iria ganhar com aquela entrevista, pigarreou e passou a falar com desenvoltura:

- Café da manhã? Não senhor, não tomei ainda, não... Isto não é coisa de todo dia, só quando a mãe está com dinheiro para o pão ou quando a minha irmã mais velha chega do trabalho... Ela trabalha à noite e chega em casa pela manhã... errr... tem dia que ela não vem, ela dorme na casa de uma amiga, sabe, é mais perto do trabalho. Eu acho que ela trabalha num hospital, pois ouvi falando no celular que não agüentava mais fazer tantas massagens! E parou uns minutos para saborear o café pingado com pão e manteiga que seu interlocutor mandara buscar no boteco ao lado.

- A Mãe trabalha como faxineira numa firma da cidade, como ela não sabe ler nem escrever, ela não tem carteira assinada, e não ganha nem um salário mínimo direito... Ela diz que às vezes reclama com a chefia, mas eles respondem que é assim mesmo, é pegar ou largar, e que hoje em dia, sai um, tem vinte atrás da vaga... Mas ela sustenta a casa com o dinheirinho que ela ganha lá, na firma, mais uns trecos que ela vende para a vizinhança, sabe, é sandália, perfume, roupa... Aqui em casa só somos eu e ela... a minha irmã pouco fica aqui... mas nós éramos quatro irmãos.... só de pensar bate uma saudade... E parou de falar, procurando reter a emoção.

- O mais velho morreu na saída de um baile funk, aqui próximo, no morro vizinho que é “nosso” aliado... A forma como o menino destacou o “nosso aliado” fez o homem tremer.

- Nunca soubemos quem matou o meu irmão, se foram os bandidos ou os “polícias”, um coloca a culpa no outro, mas nada disto adianta agora, ele não vai voltar mais... O meu outro irmão, tinha quatro anos, quando morreu... não foi de tiro não senhor... Ele pegou uma tal de lep.. leps... isto, leptospirose , isto mesmo... a mãe foi de hospital em hospital, mas nenhum quis interná-lo, uns não dispunham de vagas, outros não tinham remédio e outros ainda, não tinham médicos... Eu só sei que hoje o meu irmãozinho não tem mais a sua vida.... E deixou cair uma fração furtiva de lágrima, logo disfarçada, no canto dos olhos.

- Colégio, gosto sim!... Não , não estou no colégio, não! Sabe, eu me dava muito bem com as letras, com os números eu não gostava não, mas com as letras eu me dava bem, eu gostava de inventar histórias nas redações que os professores passavam... e eles gostavam muito das minhas histórias!
E encheu o peito, orgulhoso.

- Mas não dá para assistir aula aqui por perto, pois sabe como é colégio público, tem pouca vaga, e eu fui parar num colégio de um outro bairro. O “movimento” de lá queria vender droga na porta do colégio, em plena luz do dia. E paravam as aulas sempre que, por algum motivo, era interrompido o seu comércio... Daí que eu ficava mais tempo em casa do que no colégio... e a mãe me tirou de lá... Desde então, estou assim, sem estudo fixo, fazendo uns cursos “grátis” que surgem por aí. O último que arrumei foi numa igreja, eu só fiquei uma semana... a mãe ficou fula comigo e eu ainda não contei para ela, mas eu saí porque tinha um padre que esperava ficar sozinho para ficar tocando em mim. Apalpava o meu corpo, eu não gostava e pedia para que ele parasse... como ele não parou, eu dei um chute nele e nunca mais apareci por lá... Foi um sufoco, moço! Exclamou o menino, nitidamente perturbado com as lembranças exteriorizadas.

- Pai? Conheci, sim senhor... Ele bebia e batia muito na minha mãe, ela já acabou até no hospital por causa das brigas dele... Ele sempre dizia que iria embora... Teve um dia que ele foi, e não voltou mais!!!! Mas sabe, a gente ficou mais tranqüilo assim, ele não ajudava em nada mesmo, e o pouco dinheiro que ganhava com biscates, ele gastava com bebidas...

- Amigos? aqui os amigos de verdade a gente conta nos dedos de uma só mão, moço.... mesmo porque a gente vê os amigos que cresceram conosco, entrarem para o “movimento” e morrerem cedo. Uma vez, colocaram uma arma na minha mão e me chamaram para vigiar as entradas do morro. Disseram que eu ganharia muito dinheiro. Eu não quis, não. Me chamaram de covarde, talvez eu seja..., mas sabe moço? Eu li em algum lugar alguma coisa do tipo: ...às vezes, a maior valentia é não lutar... Mas se a grana apertar e a minha mãe precisar de ajuda, quem sabe eu não topo? A gente tem de se virar, não é mesmo?

Neste momento, o escritor desligou o gravador e passou a refletir sobre tudo o que tinha escutado, depois de liberar o menino para ir ao banheiro. Pensou em todas as entrevistas que já fizera, com as mães, avós, líderes religiosos, representantes da associação e até mesmo outras crianças, e nada tinha saído tão pungente quanto aquela conversa que ora travava com um menino de treze anos, mulato de tez morena e olhos negros e penetrantes. Será que ele seria capaz de colocar em seu livro todo o sentimento relatado ali? O menino voltou à saleta. O escritor preparou a última pergunta:

- Paz? Sei não moço..., aqui só se vive em guerra... E parou para refletir um pouco. - Eu acho que a paz só existe nos sonhos, quando a gente dorme... Aí eu solto pipa, jogo bola, brinco à vera, como muito, cresço e apareço, viro gente e as pessoas me cumprimentam na rua... A paz moço, para mim é fechar os olhos!!! E apertou a mão do escritor , depois de recolher seu pagamento. Em segundos, ganhou as vielas da favela.

E o escritor recolhendo lentamente os seus equipamentos, perguntava-se qual a maior violência relatada por aquele menino, naquela manhã.

Pensava insistentemente nele e em sua paz de olhos fechados, devido ao descaso de todos nós, todos os dias, em todos os lugares e de diferentes formas, escolhendo qual a violência que menos nos agride, no intuito de manter nossa ilusória paz de olhos abertos.

-.-.-.-

Este post faz parte de uma blogagem coletiva proposta pelo jornalista Lino Resende.

16 comentários:

Vera Fróes disse...

Adão, infelizmente essa é a realidade de muitos brasileirinhos(no diminutivo não porque eles não tenha valor mas porque as autoridades fingem em não os ver).
Tbm participo da blogagem do Lino.

Bjos.

Patty disse...

Texto sensacional!
A começar pelo título profundamente reflexivo. São tantos os atos de violência e algumas tão silenciosas ou nós q tapamos os ouvidos?

Um beijo e bom dia!

Saramar disse...

Excepcional texto, que me emocionou demais.
Estou refletindo sobre a pergunta do título e ainda não encontrei resposta.
A sua resposta, porém é eloquente.
Parabéns!

se quiser ver a minha participação na blogagem, por favor, vá em http://abrindojanelas.blogspot.com

CRISTIANE LINS disse...

No começo a sua pergunta do título pareceu não fazer muito sentido...
depois caiu a ficha. É genial esta colocação. Procuramos fingir viver em paz, com tanta violência em nossa volta, mas não damos imprtância, contato que não nos atinja!

Fantástico o seu texto, Adão!

beijo
Cris

Morena disse...

Caramba que texto perfeitoooo
Espero q tenhamos paz.
Bjokas

Marcos disse...

Nordestino, favelado, convivendo com o tráfico de drogas, pai alcóolatra, irmã prostituta,mãe analfabeta... Esses são os clichês mais vistos em se tratando de violências, mas ajudam a pensar numa resposta à pergunta inicial.
Toda essa violência narrada, vêm, na minha modesta e nada confiável opinião, de cima para baixo, dos maus exemplos dadas por quem deveria combater tudo isso e se encatela nos palácios atapetados, de frente para o mar e de costas para as cidades.

BEATRIZ MENDES disse...

Adão,
É mesmo perfeita a pergunta.!!
Eu acho que a maior violência é ficarmos parados, culpando aos outros e reclamando da boca para fora, enquanto podemos nós mesmos, fazer algo a respeito.

beijos
Bia

LÉA MARTINS disse...

Eu tenho uma opinião mais "mística".
Quem ainda não conquistou a paz interior, não consegue irradiar paz para lugar algum. Pode alguém pregar paz e não violência, se vive em conflitos interiores e exteriores?

sds / Léa

LORENA disse...

"A paz invadiu o meu coração..."
Ela começa mesmo em nós, antes de tudo.

Gostei da iniciativa.

Beijos

ALEX FERREIRA disse...

Caro Adão,

Oportuna e belíssima postagem. Não pude deixar de lembrar de Mahatma Gandhi, e busquei este pensamento dele, para ilustrar o seu texto:
"A não violência é a maior força à disposição da Humanidade. Ela é mais poderosa que a mais poderosa das armas de destruição concebida pela ingenuidade do Homem."


Forte abraço

Tamara disse...

Nenhuma. Não tenho paz. Alguém tem?

Concordo com o menino, a paz só existe quando estamos de olhos fechados enquanto a violência engole solta o nosso redor.

ANA PAULA disse...

Adão,

Adorei esta história. Ela mostra bem tantas violências sofridas todos os dias e que nem percebemos.

beijos

Lino disse...

Adão:
Fiquei tocado com a história, que mostra como o sofrimento afasta a paz e chama a violência. Nesta hora é preciso mesmo um sonho. Só que, neste caso, podemos sonhar acordado e dar uma pequena contribuição para que essa paz seja atingida.
Muito obrigado pela participação.

ANA SEABRA disse...

Adão,
Concordo plenamente.
A maior violência é a banalização da violência. Quando fingimos que nada está acontecendo, até que nos aconteça.

Beijo

Eliana disse...

"É pela paz que eu não quero seguir admitindo"

Lidiane disse...

Deu um nó na garganta.
Um aperto no peito...

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