
Chega uma hora de verdades definitivas,
hora que já não suporta soluções provisórias:
aquele outono não te serve mais
a folha que caiu ao chão, murcha e seca
deverá tornar-se a derradeira daquela estação
a página que foi virada, de teu livro tosco
configurará o final de tua leitura
a porta que foi fechada, muda e mouca
quedará quieta e impenetrável
Chega uma hora de constatações necessárias:
o caminho mudou,
teus passos desaceleraram,
a estrada entortou,
teus horizontes verticalizaram
vê: nem mesmo nasceu outra manhã
e já estás em atraso!
Chega uma hora de extravasar-se:
as suas vestes não mais te servem,
teus sapatos afrouxaram,
teus pelos crescem por todos os lados,
já não cabes mais em si!
Chega uma hora em que não há mais hora exata:
jogaste fora os relógios, desfizeste-se das bússolas
não sabes mais
de astrolábios ou sextantes
não sabes mais
do ocidente nem do oriente
em teu peito,
chega uma hora em que é chegada a hora!
É chegada a hora de renovar-se,
de reinventar-se,
corrigir o rumo, volver o timão,
puxar o manche,
lançar-se ao céu,
é chegada a hora de alçar o seu vôo!
Celebre o novo!
Com a vontade de descobrir
um novo rumo,
um novo porvir,
novos abraços amigos,
novos beijos amantes,
novas bocas falantes,
novos amores e paixões!
Celebre a vida!
Com a sede dos embriagados,
a fome dos retirantes,
a ânsia dos viciados,
a volúpia dos amantes!
Celebre o teu novo "eu"!
Com a luxúria de alcançar
numa febre primaveril,
de uma só vez,
compulsivamente,
novos gostos
e novos gozos,
transfigurando
as antigas estações
e os finais de verão
em novos outonos!