10 Maio 2009

Singela questão



Ainda que o tempo turve,
a voz emudeça
e a pena desça,
num féretro sem corpo presente

Às vezes ressoa um sol indiferente
à tua vigília,
postado à mesa
numa singela questão:

Tem alguém aqui?


19 Outubro 2008

Previsão do tempo


(Foto: Carolina Lauriano / G1)


Forte neblina, com chuvas constantes... Sem previsão de melhoras...
Mas, conforme bem disse uma querida amiga, o peso que carrego me torna cada vez mais leve...

31 Agosto 2008

Viver imperativo


(Foto: Anderson Clayton/G1)
Crê
Nem toda promessa é falta
Nem todo crime é pena
Nem toda dor mata...


Na pauta da areia fina
No olho desta tormenta serena
No espelho d’água da retina...


Para a montanha, o vulcão
Para o silêncio, o grito
Para o frio de Agosto, o verão...


Que a roleta permanece rodando
O músculo persevera hirto
E eu continuo voltando...
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12 Junho 2008

Os "Filhos Daspu"



Que tal falarmos um pouco de cultura, moda e economia?

O afoxé “Filhos de Gandhy”, fundado por estivadores portuários da cidade de Salvador. em 1949, tornou-se o maior e o mais belo Afoxé do Carnaval da Bahia. O Bloco desfila nos dias de carnaval, e em dias festivos como a Festa de Yemanjá e a Lavagem do Bonfim .

A Grife “Daspu”, fundada por prostitutas cariocas em 2005, que, reunidas em associação, confeccionam e comercializam roupas de festa, figurinos básicos e o que chamam de modelitos de “batalha” – saias, vestidos e blusas ideais para exercer a mais antiga profissão.
A grife sempre pega carona no “Fashion Rio”, como hoje, 12/06/08, às 20h, na quadra da Unidos da Tijuca para lançar suas alegres coleções.

A CSS, Contribuição Social para a Saúde, foi embutida por lei complementar ao projeto que regulamenta a Emenda 29, que destina maiores recursos para a área da saúde. O governo quer, com a CSS, criar uma fonte para os gastos com a Emenda, que prevê mais R$ 23 bilhões para o setor, ao invés de usar os recursos já disponíveis para tanto.

Inspirados no afoxé baiano e na grife carioca, um grupo de Brasília criou o bloco “Filhos Daspu”, e desfila sempre que há necessidade ou conveniência para os seus integrantes ou para os grupos que eles representam.

A propósito, clique aqui, para acessar o link com a lista de nossos representantes que votaram a favor da criação da CSS, um imposto desnecessário, caso o governo não malversasse os recursos disponíveis de uma forma tão irresponsável e despudorada, como nunca antes na história deste país...

28 Maio 2008

Odisséia



O amor foi à função.
Bebeu, cantou e bailou: estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse.
No dia seguinte o amor bailou e cantou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas.
O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas, que ele não apanhava, gerânios que oferecia às crianças e às mulheres.
O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava.
Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-lhe, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo, aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir, gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência; e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas e ninguém pode ver as partículas.
Foi sepultado formalmente no fim do mundo, que é pra lá da memória. Ninguém localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima e todos falavam nele.
E ressuscitou no terceiro dia.
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p.s.: Odisséia, Carlos Drummond de Andrade
Mestre Drummond, mais uma vez, me traduz integralmente.
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11 Abril 2008

Novos outonos





Chega uma hora de verdades definitivas,
hora que já não suporta soluções provisórias:

aquele outono não te serve mais
a folha que caiu ao chão, murcha e seca
deverá tornar-se a derradeira daquela estação

a página que foi virada, de teu livro tosco
configurará o final de tua leitura

a porta que foi fechada, muda e mouca
quedará quieta e impenetrável

Chega uma hora de constatações necessárias:
o caminho mudou,
teus passos desaceleraram,
a estrada entortou,
teus horizontes verticalizaram
vê: nem mesmo nasceu outra manhã
e já estás em atraso!

Chega uma hora de extravasar-se:
as suas vestes não mais te servem,
teus sapatos afrouxaram,
teus pelos crescem por todos os lados,
já não cabes mais em si!

Chega uma hora em que não há mais hora exata:
jogaste fora os relógios, desfizeste-se das bússolas
não sabes mais
de astrolábios ou sextantes
não sabes mais
do ocidente nem do oriente
em teu peito,
chega uma hora em que é chegada a hora!

É chegada a hora de renovar-se,
de reinventar-se,
corrigir o rumo, volver o timão,
puxar o manche,
lançar-se ao céu,
é chegada a hora de alçar o seu vôo!

Celebre o novo!
Com a vontade de descobrir
um novo rumo,
um novo porvir,
novos abraços amigos,
novos beijos amantes,
novas bocas falantes,
novos amores e paixões!

Celebre a vida!
Com a sede dos embriagados,
a fome dos retirantes,
a ânsia dos viciados,
a volúpia dos amantes!

Celebre o teu novo "eu"!
Com a luxúria de alcançar
numa febre primaveril,
de uma só vez,
compulsivamente,
novos gostos
e novos gozos,
transfigurando
as antigas estações
e os finais de verão
em novos outonos!

11 Março 2008

Da cidade dos anjos


Foto: Custódio Coimbra
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Eu me pergunto
qual o mérito
de possuir um espírito imortal
quando desejo consumir
cada partícula nesta fogueira
de não poder te amar...

Eu clamo aos céus
pelo motivo
de ter colocado tamanho peso sobre meus ombros
viver atado a este corpo
numa cidade de anjos
e não saber voar...

Eu me interrogo
qual o sentido
de fazer entrar o ar em meus pulmões
ver de inopino o teu rosto
e imediatamente
não conseguir respirar...

Eu me envergonho
de esquecer
de forma tão egoísta
das vítimas desta cidade
de tatianas, marias, joãos, alanas
tantos anjos que prematuramente
foram obrigados a nos deixar...

Eu não entendo
qual a razão
desta gota irrealizável
deste árido deserto sobre os meus olhos
pensar na cidade, nos anjos,
em nós dois,
e não conseguir chorar...

Eu só não me arrependo
de todo
pelo simples fato:
é preciso viver nesta cidade
ao menos uma única vez
para mensurar tamanho fardo
de estar aqui, fechar os olhos...
abrir novamente,
e não se apaixonar...



ouça: "Iris, Goo Goo Dolls"

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