segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Ao mestre, com afeto...


“Não é que eu deixe de me sentir, na mão desses sabedores filólogos, um pouco como um inseto debaixo da lente do zoologista: a gente fica toda cheia de pés, perde a naturalidade e a segurança: eles analisam o que você nem supunha merecedor de atenção mais detida, e descobrem intenções e propósitos quando você apenas instintivamente sincronizou a sua língua de falar com a sua máquina de escrever; e identificam normas a que você supostamente teria obedecido, quando na verdade você é um modesto anarquista literário que escreve de ouvido, e erra e acerta, levado nas asas da pura intuição.

Porque é sabido que o escrever, como o samba, não se aprende na escola. A fala é que ensina, não o livro, quero dizer, os outros livros. O livro de ensino será apenas o guia ideal, assim como os dez mandamentos, que são a lei do cristão: devidamente reverenciados, mas pouquíssimas vezes obedecidos ao pé da letra. É só assim uma idéia geral da direção: o resto quem faz é o seu instinto de escritor. Nem eu acredito que possa escrever prosa ou poetar efetivamente aquele que, para o fazer, tem que primeiro consultar as leis da escrita. O espírito do idioma é que tem de baixar sobre ele, numa espécie de Pentecostes especial para o ofício.”

(Rachel de Queiroz, em Antologia de textos do modernismo, de Raimundo Barbadinho Neto)

...

Uma analogia antiga diz que a memória é como o café. Tanto mais amargo e forte, mais prejudicará o estômago e o sono. Tanto mais quente e doce, mais nos proporcionará uma confortante sensação de prazer.

Daí que eu estava lendo esta lindeza de nossa fantástica Rachel de Queiroz, como tivesse sido escrita para mim (quanta pretensão!) , quando o café, da cozinha, me chamou. Enquanto refletia sobre as sutis armadilhas da memória, fui atendê-lo.

Não que eu tivesse nenhum trauma de minha época de escola secundária (era assim chamada na época, há alguns anos-luz), muito pelo contrário. Eu tinha meus quinze, dezesseis anos, era considerado excelente aluno, extravasava minhas pretensões artísticas nos inúmeros grupos musicais que participavam de festivais escolares, e, estudava num dos mais conceituados colégios do Rio de Janeiro: o Pedro II.

O problema é que apesar da doçura do texto de Rachel de Queiroz, eu não poderia ignorar que este fazia parte de uma lembrança amarga. Era a orelha de um livro didático escrito pelo "emérito filólogo" Raimundo Barbadinho Neto. Membro da Academia Brasileira de Filologia, pródigo Alagoano, discípulo dileto do mestre Rocha Lima e... professor do Pedro II. Aliás, meu professor em dois dos três anos do curso.

Eu não sei como não doei este livro. "Antologia de textos do modernismo", Ed. ao livro técnico, é dos livros que eu certamente classificaria como que “nunca-mais-seria-lido”. Contudo ele sobreviveu e veio cair em minhas mãos, num final de semana tranqüilo em que eu procurava algo para ler.

Num milésimo de segundo, retornaram ao meu convívio os colegas da época, as largas construções do colégio, a piscina, a quadra poliesportiva, o anfiteatro (meus locais favoritos). Retornaram também as aulas de português ministradas pelo Professor Barbadinho.

Em dois anos, estudar português deixou de ser um dever prazeroso e tornou-se um suplício. O mestre olhava a classe de cima para baixo, como os militares olham os seus comandados. Talvez, reflexo da época em que vivíamos. Ele era sarcástico e mordaz, extremamente exigente e austero. Eu me tornei o “rei” das palavras “não-dicionarizadas” o que ele me lembrava freqüentemente, com a sua letrinha miúda, em cada redação que eu esboçava. “Para desrespeitar as regras é preciso conhecê-las profundamente, Adão...” Era este tipo de bilhetinho que ele deixava nos testes e provas que ministrava. Nunca fui reprovado por ele, mais em tempo algum eu torci tanto para que as férias de fim de ano começassem rapidamente.

Com a xícara na mão, retornei à sala, provando um gole de meu café amargo. Pus-me a folhear aquele livro, motivador de minha viagem no tempo. Concluí a leitura do brilhante texto de Rachel de Queiroz, colocado nas orelhas do livro. Prefácio de Rocha Lima, posfácio de Drummond e Rachel de Queiroz. Nossa. Além destes dois, são estudados textos de Cecíia Meireles, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. O autor apresenta os textos mais significativos de cada um dos “modernistas” acima citados e elabora questões pertinentes, deixando ao leitor chegar a conclusão sobre cada texto, fornecendo tão somente os elementos lingüísticos necessários para o sucesso da empreitada. Eu desconfio saber o porquê de não ter me desfeito deste exemplar. Devo admitir: é um excelente livro.

Eu sempre achei que nas aulas do Professor Barbadinho faltavam algumas pedrinhas de afeto. Como deveriam faltar também em sua vida particular. Ainda lembro, nos poucos momentos em que baixava a guarda e conversava informalmente com a turma, e contava como era duro chegar em casa após um dia cansativo de trabalho e ter que preparar o próprio jantar, pois vivia só. E seu único lenitivo eram as novelas, que ele assistia despudoradamente e , vez ou outra, parava para comentar conosco.

Hoje, pouco mais de duas décadas depois, apesar de discordar com o seu método de ensino e a sua forma de tratar aos alunos, reconheço também que em alguns de seus conceitos, ele estava certo. Afinal, realmente para que as regras sejam desrespeitadas é necessário que as conheçamos bem, para sabermos o que estamos fazendo. Isto, não só com a palavra, mas em qualquer nível. Caso contrário, esbarraríamos na ignorância e no vandalismo.

Infelizmente hoje, eu nem sei se o professor é vivo ou morto. Mas quem sabe, realmente?

A música do aparelho estacou e com o controle remoto, faço Billie Holiday cantar “Speak Low” novamente. A tarde já estava acabando, prenunciando a noite e, por via das dúvidas, resolvi colocar algumas pedrinhas, (de afeto?), em meu café...



p.s. este post contou com o “auxílio luxuoso” em sua produção, de Lidiane, mestra que segundo seus alunos, ensina com doçura e afeto desmedidos...
obrigado, Lidi!

27 comentários:

Lidiane disse...

Querido Adão.

Tão bom ler você, assim, logo pela manhã...

Às vezes, Adão, sinto que preciso de milhares de pedrinhas de afeto em meu café, que, vez por outra tem sabor de fel.
Nem sempre é simples chegar em casa, depois de um dia cansativo de trabalho e respirar tranqüilamente. É preciso paixão pela sala de aula, mas, hoje, entendo que também é preciso doses generosas de compreensão e MUITA paciência. O mestre erra tanto quanto o aluno e é tão aprendiz quanto ele, e, por isso, também sente e sofre. Talvez um tantinho mais... por causa da experiência que a idade traz.
Concordo com minha queridíssima Rachel de Queiroz. Nem sempre é o livro quem mais ensina. Mas também concordo com seu professor: para brincar com as regras, é preciso conhecê-las e acarinhá-las antes.
Acarinhá-las amorosamente. E então, sobrepujá-las.

Esses dias, em uma dessas madrugadas, conversava sobre isso.
Sinto muita falta de uma formação mais clássica. Não porque o clássico me atrai, mas porque o conhecendo profundamente, posso subvertê-lo com mais leveza.

Lendo você falando de seu professor, imaginei a delícia que seria para ele, saber do que escreveu. Dever cumprido Adão. O discípulo está à frente do mestre! Ele se orgulharia.

A você, meu carinho mais doce e respeitoso.
E, não vou mentir, adorei ser citada aqui, mesmo que você tenha sido generoso demais nisso.

Beijo grandão assim :*********

BEATRIZ MENDES disse...

Querido,

É realmente muito bom ler um texto tão leve e confessional assim, logo pela manhã. Receba o meu beijo também com carinho e admiração.

Bia

Jôka P. disse...

Adão, a Galeria Prochownik abre de segunda a sexta-feira, das duas da tarde as sete.
Estou lá geralmente as segundas e quintas feiras.

Um abraço
Jôka P.

Jôka P. disse...

Uma sugestão:
Que tal ir nas configurações de seu Blogger, ir em "comentarios" e marcar "sim" em "mostrar imagens nos comentarios".
Assim nossos avatares apreceriam aqui.
Fica mais legal...
Abç!

ANA SEABRA disse...

Adão,
Uma delícia vir aqui e ler você. Gostei muito também do que a Lidiane escreveu.
Eu acredito que o pior defeito que um mestre pode ter é o descompromisso.

Beijos,

Vera Fróes disse...

Adão, comecei a ler esse lindo texto, e as lembranças dos professores que passaram pela minha vida estudantil vieram à tona. Infelizmente, poucos foram os que me incentivaram e até me desafiaram a conhecer melhor a língua. Tive poucos livros na casa dos meus pais, só o necessário. Uma pena! O que me faltou, as minhas filhas têm sem limites. Livros de todos os generos estão a disposição delas. Vejo como isso é importante, elas são super criativas e tem um vocabulário bem acima da maioria dos seus colegas, tanto na escrita quanto no falar. Não é corujice não. São impressões dos professores delas.

Adorei as pedrinhas de afeto. Isso faz toda a diferença seja no café ou na vida!

Bjos.

CRISTIANE LINS disse...

Adão,
Foi mais uma viagem que você me proporciou, através do tempo, da memória, lembrando de minha época de escola. Sabe, um texto escrito com o intelecto, nos faz refletir, e um escrito com o coração, nos faz sentir, viajar através das emoções guardadas em nosso íntimo!

Obrigada e parabéns, amigo!

ALEX FERREIRA disse...

Ser professor neste país é mesmo um ato heróico que merece sempre toda nossa consideração.

um forte abraço,

Kristal disse...

Cheguei aqui através do Av. Copacabana.
Você é muito talentoso !

LÉA MARTINS disse...

hehehehehehe, estou imaginando a sua cara, naquela época, recebendo os "bilhetinhos" nas provas.
Eu também, lembrei de minha época de estudante (e não faz tanto tempo assim, viu?)

Belo texto, de novo! Te dou um dez!

bjs/Léa

Eliana disse...

Os professores podem realmente arranhar o nosso amor pela língua escrita, mesmo quando repletos de boas intenções. Mas o amor, quando é forte, não permite mais que um arranhão.
Concordo que devemos conhecer as regras, para subvertê-las e o mesmo se aplica às palavras. Ao ler essa beleza de texto, que você escreveu, a memória mais doce me trouxe outro, de Manoel de Barros, que eu adoro e reproduzo aqui.

"Os governos mais sábios deveriam contratar os
poetas para o trabalho de restituir a virgindade a
certas palavras ou expressões, que estão morrendo
cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas
podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a
poesia tem a função de pregar a prática da infância
entre os homens.
Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a
linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso
ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma
para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe
até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto
casto. Um texto virgem que o tempo e o homem
ainda não tenham espolegado.
O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso
propor novos enlaces para as palavras. Injectar
insanidade nos verbos para que transmitam aos
nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira
vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é
tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi
dito de outra maneira.
Se você prende uma água, ela escapará pelas
frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele
escapará por metáforas. No internato, longe de casa,
eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser
inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse: -
Não presta para nada; há-de ser poeta!

SILA GÓES disse...

Olha eu quero deixar uma PEDREIRA DE AFETO para ti!


Beijos e beijos

Rossana disse...

Eu sou, de fato, uma pessoa privilegiada. Tenho amigos lindos, inteligentes, sensíveis...
Que belíssimo texto meu amigo Poeta... e.. que lindo comentário minha amiga Eliana.

Beijos

MARCELO disse...

Mestre Adão, incrível como que por onde vc passa o nível fica elevado!
Fiquei enriquecido com tudo o que li aqui.
abraços, mestre!

cláudio santos disse...

IH BROTHER, VOCÊ JÁ PASSOU COM LOUVOR!!!!!

TÔ SUMIDO, MAS TÔ NA ÁREA.

ABÇS!!

Pia Fraus disse...

e que o tempo faça sua samsara num eterno retorno, amém...
PS: lindíssimo
bjo

SAMARA DIAS disse...

Na minha época eu tinha inúmeros professores assim e eu os odiava.
Depois com o amadurecimento, percebi o quanto foram importante na minha formação, apesar dos "traumas"...
Excelente você ter tocado neste assunto,

uma boa quarta para você

ANA PAULA disse...

Adão, que bom compartilhar destas lembranças. Vamos tomar um café? (risos) Com várias pedrinahs de afeto????

beijos

ANA PAULA disse...

EU QUIS DIZER: PEDRINHAS...

LORENA disse...

Eu tenho boas lembranças daquela época e nunca tive problema com os meus professores, mas acho que eu dei sorte. Eu até fiquei caidinha por um professor de Geografia, que era o máximo....
pronto, já te contei um pouco das minhas confidencias também...

beijo,

Jôka P. disse...

Ficou bacana agora com o visual dos AVATARES, Adão !
Abç!

LÉA MARTINS disse...

Cadê o texto novo?????

snif!
sds/Léa

Vera Fróes disse...

Adão, passando para desejar um lindo final de semana para vc.

Bjos.

Anônimo disse...

A audiência reclama atualização.
:P

Lidiane disse...

Baum, só não saiu a assinatura.
Enton, de novo:

A audiência reclama atualização.
:P

Dirlene disse...

Olá, tudo bem? fui também aluna do Barbadinho no início da década de 80, por 2 anos e lendo hoje este seu texto gostaria de dizer-lhe duas coisas: ele era sergipano e não alagoano como mencionado e faleceu em 28/06/2008. abraços

Ana Martins disse...

Oi Adão!

Sou ex-aluna do Barbadinho!!! Procurei informações sobre ele no google e encontrei seu blog, com este belíssimo texto, que me deixou super saudosa e emocionada!
Espero que possa receber este meu comentário, já que não encontrei atualizações recentes, o que é uma pena.
Parabéns pelo blog!
Ana Martins

Postar um comentário

As opiniões aqui postadas são de responsabilidade de seus autores. O Autor do blog somente se responsabiliza pelo conteúdo publicado e assinado pelo próprio.