sábado, 22 de julho de 2006

A revanche do canarinho

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Eu sempre repito isto como um mantra, mas nem sempre consigo cumprir...

Na semana passada saiu o resultado do concurso "Contos do Rio", promovido pelo Jornal "o Globo" do Rio de Janeiro. A proposta do Jornal é incentivar novos autores, ainda inéditos. Deveriam ser inscritos contos sobre futebol, tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro. Foram inscritos cerca de dois mil textos, dentre os quais seriam escolhidos somente dez, analisados em pouco mais de dois meses por quatro julgadores. Participei, mas não fui selecionado. Confesso que fiquei um tanto frustrado. Escrevo desde adolescente e devido à vários desvios em minha estrada, abandonei por longos anos, retornando a escrever regularmente apenas no ano passado.

Contudo, já passei da idade das frustrações duradouras, estou novo em folha e vou postar hoje o texto "a revanche do canarinho" que concorreu ao concurso. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas.

Para ler um dos dez textos selecionados, clique aqui.

Para ler o meu, segue abaixo:

A revanhche do Canarinho

Niltinho tem nome de craque. Herdou de seu avô, seu Nilton Santos, que por sua vez, sempre sustentou com orgulho a coincidência de ser xará de um de seus maiores ídolos, o craque de seu Botafogo e da seleção brasileira.

Esta lembrança, dentre tantas outras rondavam num turbilhão a mente de Niltinho que estava em pleno Maracanã, num domingo perfeito de sol, no intervalo do jogo mais importante que seus onze anos já tinham visto.

Como ele queria estar ao lado de seu avô naquele momento! Tantas foram as vezes que eles estiveram neste mesmo estádio assistindo aos jogos do Botafogo, paixão também herdada do avô, ou visitando o hall da fama e o museu do futebol.

Mas seu avô não pôde ir ao jogo. Estava internado há mais de uma semana num CTI, após ter sofrido um AVC, siglas demais para o entendimento de Niltinho, que discernia apenas que ele precisava de cuidados.

Levado ao jogo pelo pai de seu amigo, Niltinho permanecia tão ensimesmado que nem viu começar o segundo tempo. Por instantes, não atinava o que todos questionavam: como a nossa seleção que esteve presente em todas as copas, perigava não se classificar para a próxima?

Contudo, lembrara-se que a seleção fizera uma campanha medíocre: de onze jogos disputados, ganhou apenas três! Agora, este jogo, o décimo segundo, era a última esperança de classificação. E o jogo estava zero a zero! Apelaram para que todos prestigiassem o time. E a população atendeu: o Maracanã estava lotado como há muito não se via. Era impressionante ver o anel da arquibancada colorido em amarelo, verde, azul e branco. Mas Niltinho a cada lance perdido, lembrava de seu avô falando para ele que futebol deve ser jogado com alegria, como crianças jogando de pés descalços. Ele dizia que todos os craques do passado jogavam como se estivessem na rua, driblando paralelepípedos e meios-fios ou no campo de várzea, desvencilhando-se da poeira ou da lama! Era uma rara reunião de ofício, com amor à profissão, que hoje em dia quase não existe mais!

Quando visitava o avô e ele não estava em casa, o porteiro o deixava subir e ficava deliciando-se com as revistas antigas sobre futebol. Numa destas visitas, além das revistas, ele achou uma pasta preta com uma etiqueta indicando: “A VINGANÇA DOS MEDÍOCRES”.

Curioso, abriu e leu todo o conteúdo, de folhas manuscritas a resultados de jogos, nomes de técnicos e dirigentes assinalados. Era um dossiê no qual seu avô fazia crer que havia uma conspiração por parte de ex-jogadores de futebol que nunca foram considerados craques, eram no máximo atletas esforçados que após pendurarem as chuteiras continuaram no meio, como técnicos, preparadores ou mesmo dirigentes. Esta classe estaria unida em torno de um objetivo: provar ao mundo que no futebol, o resultado é mais importante do que jogar bonito!


Estas lembranças esmaeceram quando olhou para o lado e seu amigo mordia o boné com cara de terror, olhou para frente, o pior: era gol do adversário! O sonho da classificação estava mais longe!

A partir de então a decepção de mais de setenta mil pessoas se transformou numa força incoercível que fez coro uníssono em torno do nome de Manezinho, jovem promessa de craque que estava no banco, mais pela pressão da opinião pública que pela vontade da comissão técnica. Manezinho, que ganhou este nome por ter as pernas tortas, futebol insolente, exatamente como outro famoso Mané, é legítimo representante do futebol-alegria e agora, repositório das esperanças de todo um Maracanã, das esperanças de Niltinho que vibrou de emoção após o anúncio de sua entrada aos vinte e um minutos.

Logo no primeiro lance, o jovem craque adiantou muito a bola e perdeu a jogada. Os dois lances seguintes, também não lograram sucesso. Niltinho suspeitava que Manezinho estava mais nervoso do que ele!

Aos trinta e cinco minutos Manezinho fez a torcida levantar: recebeu a bola na intermediária, carregou a bola com sua perna torta, trançou as pernas, deixou o oponente no chão, driblou outros três como se eles não estivessem lá, entrou na grande área e chutou de bico: gol! O mundo, aos pés de Niltinho, parecia ruir, num estremeção ímpar, numa explosão de alegria.

Mas era pouco. Manezinho fez mais três jogadas fenomenais que deixaram o adversário sem moral, e a nossa comissão técnica calada, mas que não resultaram em gol. O jogo já passava dos quarenta e a aflição aumentava. Niltinho pensou no seu avô no hospital, na seleção eliminada, no dossiê do avô e lágrimas furtivas escorreram de seu rosto.

Quando aos quarenta e quatro minutos, uma bola espirrada sobrou na perna torta de Manezinho que avançou pela direita em diagonal, tabelou com o companheiro, recebeu a bola na frente, avançou tão livre e veloz que nenhum velocista o conseguiria alcançar naquele momento, com uma ginga de corpo driblou o goleiro, tocou a bola para as redes com a suavidade de um beijo, correu de braços abertos para a torcida, como um canarinho, amarelo e lépido, desmanchou-se em lágrimas, assim como Niltinho que havia varrido todos os maus presságios num átimo e que após abraçar a todos em volta, percebeu que a partida havia terminado. A seleção estava classificada.

Se havia algum complô, este havia sido derrotado pelo talento de um moleque um pouco mais velho do que ele, de pernas tortas e largo sorriso de esperança. Prometeu a si mesmo que iria registrar cada lembrança, cada foto de jornal, cada detalhe em um relatório que faria para o seu avô. E como para pôr um final feliz naquele dossiê incompleto, já sabia qual nome iria dar: seria “A REVANCHE DO CANARINHO”.

9 comentários:

Lidiane disse...

Adão querido.

Muita, muita e muita gente que conheço e escreve bem, jamais foi selecionada pra qualquer coisa.
Já vi textos premiados que, sinceramente, não sei o que faziam ali. Já vi coisas ótimas premiadas.
Não sei quais os critérios pra esses concursos, mas eu sei qual o meu critério pra gostar de uma coisa. E, gosto de você e dos seus textos.

Beijos e continue.

Tamara disse...

Os melhores começam assim mesmo.

Eu estou participando de um concurso de MINI CONTO, mas não tô botando fé, não. Sempre acho que as pessoas demoram prá aceitar o que é NOVO.

..........

Cheguei, hoje. Foi uma passadela apenas.

B-jinho.

Adão Flehr disse...

Lidiane e Tamara,

O que seria de mim sem vcs??? Agradeço de coração as suas palavras!

Com carinho,

LÉA MARTINS disse...

Queridinho,
fica triste não! o importante é o que vc sente e passa para a gente. Olha quanta coisa boa quem te lê de verdade ja falou de vc!

bjs/Léa

Tamara disse...

Um smile com sorrisão depois de ter lido o seu comentário.

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