domingo, 9 de julho de 2006

O estranho caso do Lateral

Não se sabe o porquê o chamam de “o Lateral”. Apesar de ter encerrado a carreira há quase vinte anos e nunca ter sido considerado exatamente um expoente em sua posição, a lateral esquerda, até hoje, ele é conhecido por este cognome.

O Lateral mora num pequeno vilarejo nos arredores de Madri, cidade espanhola em que passou a maior parte de sua vida exercendo o seu ofício e onde encerrou sua carreira. Quando em atividade, desfrutou de fama, prestígio e tudo o mais que o dinheiro amealhado por uma carreira de sucesso consegue obter. Após a aposentadoria, não largou a dolce vita, contudo fez questão de sumir do centro das atenções, passando a ter uma vida abastada, mas discreta.

Quando ele me contratou como segurança, para acompanhá-lo em sua viagem ao Brasil, duas perguntas saltaram de minha cabeça: por qual motivo ele precisaria de um segurança em seu país de origem? E por que ele não contrataria um lá mesmo, no Brasil? Perguntas difíceis de serem respondidas por mim, jovem de 21 anos, sem muito estudo e que depois de terminar o serviço militar, conseguiu uma vaga numa empresa de segurança particular.

O Lateral iria ao Brasil visitar a sua família, para batizar o seu caçula que acabara de completar um ano, fruto de seu terceiro casamento, desta vez com uma jovem atriz madrilenha, há pouco mais de dois anos. Há quase seis anos ele não voltava lá e suas viagens àquele país eram bem espaçadas. Em sua bela e bem equipada mansão nada lembrava o Brasil, e segundo amigos mais próximos, muito raramente ele se referia ao país.

Instruído para não fazer perguntas e falar somente quando solicitado, pouco contato tive com o Lateral , apesar de ter que seguí-lo bem de perto, por força de meu ofício.

Durante a viagem, pouco antes de pousar, pude perceber que ele estava bem mais nervoso do que eu mesmo que nunca voei. Quando a pequena comitiva pisou em chão brasileiro, percebi que instantaneamente a pequena tensão que havia no avião se avultava. O Lateral apertou o passo, comunicou-se com a mulher e com os outros por monossílabos. Percebi que as pessoas cochichavam enquanto passávamos por elas. À medida que os nossos passos avançavam em direção ao veículo que nos levaria embora do aeroporto, eu fitava o Lateral que por debaixo dos óculos escuros, dos trajes caros, das jóias e de todo luxo ao seu redor, parecia extremamente infeliz, contrariado e possesso.

Assim que chegamos ao carro, algo me chamou a atenção: os bagagistas deliberadamente, um a um, curvavam-se lentamente em direção aos próprios pés e lentamente, puseram-se a ajeitar as suas meias. Este estranho ritual durou menos de um minuto, mas tive a impressão de demorar um século. O meu coração disparou, desconfiei se tratar de algum complô para ferir o meu patrão, e me pus em alerta, mas olhando na direção do Lateral, relaxei um pouco, pois notei que ele acompanhava tudo sem espanto, porém enfastiado.

No carro, ao contrário de minhas expectativas, não foi trocada uma palavra, nem comigo, nem entre os outros ocupantes. Ao longo do percurso a minha estranheza só fez aumentar: em um cruzamento de vias em que o tráfego era controlado por um guarda, o nosso carro permaneceu parado por intermináveis minutos enquanto o guarda, curvado, ajeitava as suas meias.

Seria algum hábito exótico deste país ou alguma espécie de protesto contra o governo?

Impossível de descobrir. Passamos por três diferentes pedágios, presumi que o motorista deveria ter sido instruído para evitar as vias mais movimentadas, preferindo as auto-estradas, contudo em todas as paradas, o operador do pedágio abaixava-se para ajeitar a meia, antes de liberar a passagem!

Na entrada da cidadezinha para a qual nos dirigíamos, terra natal do Lateral , a surpresa foi maior: havia uma passeata bloqueando o tráfego e não conseguimos de início, identificar qual era a reivindicação, mas ao nos aproximarmos observei que todos os participantes portavam faixas e cartazes com dizeres que não consegui entender, contudo os gestos que eles faziam eram familiares: agachados, fingiam ajeitar a meia!

Positivamente, estava acontecendo algo de errado neste país!

Chegamos até a fazenda da família do Lateral sem maiores problemas e pude me refazer das surpresas daquele dia. Porém, no dia seguinte e nos demais, a estranha rotina repetiu-se interminavelmente. Onde quer que fôssemos, havia alguém em nossa direção se agachando e ajeitando a meia! Os atendentes de loja, os frentistas, os bancários, os passantes, os circunstantes, todo um país repetia o mesmo ritual, dirigido, agora eu já sabia, ao Lateral. E impressionantemente, após o gesto, as pessoas dirigiam-se a nós, a ele, como se nada estivesse acontecendo, como se tivessem realizado o gesto mais corriqueiro possível.

Após alguns dias no país, aproveitei os poucos momentos de folga para apurar que durante uma Copa do mundo ocorrida no início deste século, num jogo decisivo em que a Seleção Brasileira almejava passar às semifinais, num lance capital, o Lateral ficou agachado quase um minuto na entrada da grande área, num gesto em que parecia estar ajeitando as meias, e o atacante do time adversário avançou por seu setor e marcou o gol que eliminou a seleção brasileira daquela copa, soterrando o sonho de conquistar um hexacampeonato! Após o ocorrido, foi veiculada uma campanha pela Internet, por raiva ou gozação, em que o país era conclamado a ajeitar as suas meias para o Lateral. E esta campanha deu tão certo que ele sofre as conseqüências até hoje!

A estada no país durou quase uma semana, tempo suficiente para os preparativos e para a cerimônia do batismo. Diga-se de passagem que antes de iniciar a cerimônia, o celebrante deixou cair um papel no chão e ao abaixar-se para pegá-lo, lembrou de dar uma ajeitadinha em suas meias!

O Lateral estava visivelmente ansioso para voltar para “o seu país” e todas as providências foram antecipadas para tanto. Na pressa para pegar o avião de retorno, em umas das raras vezes que o Lateral me dirigiu a palavra, ele falou:

- Vamos, apresse-se! Vamos sair logo deste país de merda!

E subiu a escada que nos levaria ao interior do avião, não sem antes aguardar o indefectível gesto do pessoal do aeroporto, abaixado, ajeitando as meias para somente depois liberar a escada.

E voou para a Espanha, saindo finalmente do Brasil. À francesa...

9 comentários:

Tamara disse...

Ótimo, A-DO-REI!

Tamara disse...

Você ouviu a ESTRANHA RESPOSTA DO LATERAL?

Este texto é uma profecia, Adão.

Adão Flehr disse...

Vi sim Tamara,

Sinceramente não acho o Lateral o único e o maior culpado pelo nosso fiasco, mas naquele gesto, ele encarnou melhor do que ningém, macunaíma, nosso anti-herói, aquele que não está nem aí e ainda por cima carrega no pulso um "relógio que vale por um apartamento". Contudo, este conto não saía da minha cabeça e tive que postá-lo.

b-jos
p.s. estou de férias tbm, viajei, por isto sumi, tenho que ir no seu blog, vi lá um texto mt interessante, q preciso ler com mais cuidado !

Lidiane disse...

Adão.

Pois eu adorei.
E ri um monte.
A medida que ia lendo, ia pensando em como iria terminar o texto.
E terminou bem.
Você tem "savoir fair".
:P

Beijos.

Alex Ferreira disse...

Hehehehe, ele bem que merecia este castigo. Mais um excelente texto, este seu.

um forte abraço,

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