sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Indiferença: A maior violência


Red Danse, , Ivan Koulakov

Agradeço a todos que postaram comentários, enviaram e-mails ou mesmo ligaram para falar a respeito do último post, sobre o dia da não violência. Iniciativa bem sucedida de Lino Resende, dezenas de blogs participaram da blogagem coletiva, o que possibilitou uma discussão sadia e profícua na rede.

Na minha humilde contribuição, eu perguntava qual a maior violência, dentre tantas e também, qual a violência que menos mal faz à nossa paz.

A maior violência é a indiferença. A partir do momento em que fechamos os olhos, ou mesmo de olhos abertos, fingimos que não está acontecendo, ou ainda, quando acontece conosco, ficamos inertes e não reagimos, estamos cometendo a mais terrível violência conosco e com todos à nossa volta: a indiferença.

Um casal sem plano de saúde privado, procurava um hospital dentro da rede pública que os acolhessem para a chegada de seu primeiro filho. Como não entrava em trabalho de parto, nenhum hospital aceitava a jovem mãe, apesar da avançada idade gestacional.

Inúmeros eram os riscos para a gestante, caso passasse mais uma semana sem realizar a cirurgia. Neste ponto eles conheceram a face mais cruel da saúde pública: Os hospitais internavam somente gestantes em trabalho de parto. São de atendimento mais fácil, custo baixo e em poucos dias deixam o hospital. As gestantes que necessitam de intervenção cirúrgica, para o parto cesário, custam bem mais caro, e consomem mais recursos do hospital. Como a saúde pública no Rio de Janeiro (e via de regra no Brasil), sempre foi sucatada, e os poucos recursos destinados pelos governos Federal e Estadual são desviados para caminhos escusos, nunca há dinheiro suficiente para o mais básico e essencial atendimento.

Depois de peregrinar por meia dúzia de hospitais públicos sem a menor chance de um atendimento imediato, o casal foi socorrido por amigos generosos, dirigiram-se a um hospital privado, fizeram os exames e no mesmo dia, a gestante, através do parto cesáreo, deu a luz a um menino. Ele estava com o cordão umbilical enrolado ao seu pescoço, e a placenta já dava sinais de maturação. Apesar de tudo, o menino nasceu forte e saudável. Isto ocorreu há seis anos. O pai prometeu que iria promover uma campanha contra o tratamento desumano que a saúde pública dá ao cidadão, iria à midia, aos governantes, escreveria ao presidente, formularia abaixo-assinados. Não fez.

Seis anos após, no mesmo Rio de Janeiro, aquele pai lê a segunte notícia:
...
" Uma adolescente de 17 anos, grávida de nove meses, morreu após procurar atendimento em quatro hospitais públicos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e no Rio de Janeiro. Joana Gomes de Almeida começou a passar mal no domingo, 28/01 e foi levada por parentes para o Hospital de Xerém, em Caxias. Segundo parentes, não havia anestesistas na unidade. A jovem foi levada, então, para o Hospital Municipal de Caxias. De acordo com familiares, ela preferiu não ficar no local devido às más condições de atendimento.A adolescente foi posteriomente transferida para a Clínica Pró-Matre, no centro do Rio. Os parentes alegaram que Joana não foi atendida. Com ajuda de outros pacientes que estavam na unidade, ela foi levada de táxi para o Hospital do Andaraí, onde chegou por volta das 17 horas. No entanto, o bebê já estava morto. Joana faleceu horas depois."
...

Nós não somos diretamente culpados com o que acontece aos outros. Mas o que fazemos e o que NÃO fazemos, afeta todo o universo ao nosso redor. Somos cúmplices de tantos crimes, de tantas violências, cometidas contra nós mesmo e contra o nosso próximo. Somos todos filhos da violência, cúmplices da indiferença, "dançando o baile do medo".



Fonte: Portal G1
"O Medo", Drummond em "A Rosa do Povo".

15 comentários:

ANA SEABRA disse...

Adão,
Como eu havia dito no comentário anterior: a banalização da violência, a indiferença voltam-se contra nós mesmos!

beijo

LÉA MARTINS disse...

Eu tomei conhecimento do caso desta menina pelos jornais. E o pior de tudo é que acontece com frequência, como você mesmo disse.

E quanto mais "deixamos para lá", ou pensamos que "isto é coisa para os políticos resolverem" mais a situação se agrava.

Mais um excelente post!

Sds / Léa

Lidiane disse...

Nesses dias de silêncio, lendo você e pensando.

Bisu.

thiagoflehr disse...

oi pai eu te amoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

Tamara disse...

Não sou filha da violência coisíssima nenhuma! - foi o meu primeiro pensamento {rs}.

Mas depois, calmamente, cheguei a conclusão de que sou filha, sim, adotiva.

......
Essa dança sangrenta vermelha da violência é tão rotativa que, meia volta e meia, chega aos pés dos nossos lares...

......
Eu ainda me pergunto por que o pai não o fez? HUNF. Eu respondo com algo que eu vivi: porque temos prioridade na vida - a dele, talvez, possa ser, simplesmente, curtir a vinda/vida do filho. Eu que não tenho um motivo fortíssimo como este fiz esta escolha!

......
Olha o Thiaguito aí geeente!!!

Eu vi a cena dele grudado no seu pescoço {rs}.

Bom,

escrevi demais.

B-joletas

ANA PAULA disse...

Adão,
Eu não quero continuar esta dança...

Beijos

LORENA disse...

Adão, eu também acredito que "nenhum homem é uma ilha isolado em si mesmo" o que acontece a um ser humano, reflete na humanidade inteira...

Desejo-te um bom domingo!

Gabriel Flehr disse...

oi pai o seu texto é mt legal.
e eu concordo com vc no texto do daniel.

Gabriel Flehr disse...

p.s saudades estou chegando.

garota bossa-nova disse...

Tocante post este seu.Me fez me sentir meio triste.Temos culpa por muita coisa que há de errado neste país e um de nossos maiores defeitos é a condescência.Um abraço,
Manuela.

CRISTIANE LINS disse...

Adão,
É verdade, a omissão , a indiferença, voltam-se contra nós, tudo é uma questão de conscientização e queremos fazer diferente.

beijo
Cris

ALEX FERREIRA disse...

Caro Adão,
Além do mais, a violência afasta uma das principais fontes de captação de recursos de nosso país, o turismo.
Estamos dia a dia perdendo a nossa capacidade de atrair e encantar o turista estrangeiro.

forte abraço,

Eliana disse...

Sem comentários!!!!

BEATRIZ MENDES disse...

Adão,
Acabei de tomar conhecimento de outro caso bárbaro aqui no Rio de Janeiro, e a primeira pessoa em quem pensei foi em você... e neste seu post... que eu não tive coragem de comentar...

Há de ser feito alguma coisa, logo, pois a situação está mesmo desesperadora!

Bia

cris disse...

REalmente... a indiferenca gera muitos problemas. Talves se esse Pai tivesse feito o que prometeu..talves algumas coisas teriam mudado...mas com certeza ele estaria se sentindo melhor agora...por ter feito algo.
Eu precisei de cirurgia para ter os meus filhos...não foi possivel o parto normal.EU nao sei ate hj o pq..pois ninguem nunca me explicou...mesmo aqui na Noruega, meu 1. filho poderia ter morrido ou até nascido com algum problema, pois nasceu de quase 43 semanas. Mas no final deu certo.
A saúde..mesmo em países ricos sofre muito..então vemos que não é só por causa do dinheiro..mas sim de consciencia...
Fico com pena da menina..do bebê e da familia..o que me consola( se é possivel) é saber que não há uma folha sequer que caia sem o conhecimento de nosso PAi.

Agora a pergunta é..até quando isso vai continuar assim?

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